Medidas de distanciamento físico serão inúteis se relaxadas cedo demais, aponta estudo


Pesquisa americana destaca que se forem relaxadas as medidas de saúde nos EUA neste momento da pandemia, casos poderão crescer aceleradamente. Pessoas tentam manter o distanciamento social enquanto aproveitam o sábado de sol no Domino Park, no Brooklyn, em Nova York (EUA), em 16 de maio de 2020
Eduardo Munoz / Reuters
Se as medidas de distanciamento físico nos Estados Unidos forem relaxadas enquanto ainda não houver vacina ou tratamento para a infecção causada pela Covid-19, o número de infecções poderá ser tão alto quanto teria sido se o isolamento nunca tivesse sido implementado no país.
A conclusão é de uma pesquisa conduzida por matemáticos e cientistas da Universidade da Califórnia (UCLA), publicada em 21 de julho na revista científica da National Academy of Sciences.
Os pesquisadores analisaram os dados de governos locais dos EUA sobre a pandemia e desenvolveram três modelos matemáticos para simular a transmissão da doença entre as pessoas. Todos os modelos apontaram para os perigos de relaxar as medidas de saúde pública contra a Covid-19 cedo demais.
“Nossos modelos matemáticos demonstram que relaxar essas medidas sem termos intervenções farmacêuticas contra o vírus pode permitir o ressurgimento da pandemia”, afirmou Andrea Bertozzi, principal autora do estudo, professora de matemática da UCLA.
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Se as medidas de distanciamento e isolamento social não tivessem sido tomadas em março e abril, o número de pessoas infectadas na Califórnia, Nova York e em outros lugares teria sido drasticamente maior. Contudo, se essas precauções terminarem muito cedo, o número total de infecções previstas nn estudo é semelhante ao número que seria esperado ao longo da pandemia sem essas medidas.
“Os esforços de distanciamento social que parecem ter sido bem-sucedidos no curto prazo podem ter pouco impacto no número total de infecções esperadas ao longo da pandemia [se forem relaxados cedo demais]”, disse Bertozzi no material de divulgação do estudo.
Em outras palavras, o distanciamento a curto prazo pode retardar a propagação da doença, mas pode não resultar em menos pessoas infectadas no final da pandemia, conclui o estudo.
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“Nosso estudo prevê um aumento de casos na Califórnia após o relaxamento das medidas de distanciamento. Existem estratégias alternativas que permitiriam à economia aquecer, mas sem novas infecções substanciais. Todas essas estratégias envolvem o uso significativo de EPI pela população [Equipamento de Proteção Individual] e o aumento de testes”, orientou a matemática.
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Gripe Espanhola e distanciamento
As considerações sobre a eficiência do isolamento e distanciamento social, segundo os pesquisadores da UCAL, é aplicável a qualquer pandemia que o mundo venha a enfrentar.
Como exemplo da universalidade do modelo matemático, Bertozzi cita um estudo que analisou a eficácia do isolamento e distanciamento social durante a pandemia da Gripe Espanhola nos EUA em 1918.
“Um estudo constatou que o momento das intervenções em saúde pública teve uma influência profunda no padrão da segunda onda da pandemia de 1918 em diferentes cidades. As cidades que introduziram as medidas no início da pandemia alcançaram reduções significativas na mortalidade geral, mas as reduções maiores de mortalidade foram alcançadas pelas cidades que estenderam as medidas de saúde pública por mais tempo”, comparou Bertozzi.
A professora explica que as cidades que mantiveram por mais tempo o distanciamento social durante a Gripe Espanhola reduziram as transmissões em 30% a 50% em comparação ao restante do país.
Por outro lado, “durante a pandemia de gripe de 1918, o relaxamento precoce das medidas de distanciamento social levou a um rápido aumento nas mortes em algumas cidades dos EUA. Nossos modelos matemáticos ajudam a explicar por que esse efeito pode ocorrer hoje”, afirmou Bertozzi.
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