Com rosto ainda desconhecido, primeira escritora negra do Brasil é redescoberta após décadas de anonimato


Não se sabe quando nem como, mas a imagem da autora de “Úrsula” (1859) — hoje considerado o primeiro romance afro-brasileiro, pioneiro da literatura antiescravista no país — se confundiu com a de uma escritora gaúcha. Como se imagina que seja Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula” (1859), hoje considerado o primeiro romance afro-brasileiro, pioneiro da literatura antiescravista no país
André Valente/BBC
Cabelos presos, colar, um vestido aparentemente luxuoso, a pele branca. Assim esteve representada até 2012 a escritora Maria Firmina dos Reis (1822-1917), primeira romancista negra do Brasil, em uma parede da Câmara dos Vereadores de Guimarães, cidade do Maranhão onde a autora passou a maior parte de sua vida.
Não se sabe quando nem como, mas a imagem da autora de Úrsula (1859) — hoje considerado o primeiro romance afro-brasileiro, pioneiro da literatura antiescravista no país — se confundiu com a da escritora gaúcha Maria Benedita Câmara (1853-1895), conhecida como Délia.
“Em Guimarães já sabiam que aquela não era Maria Firmina, mas, como o quadro foi doação de alguém importante da cidade, não tiraram da parede”, conta Régia Agostinho, professora da Universidade Federal do Maranhão. Em 2012, ela visitou Guimarães durante um trabalho de pesquisa para sua tese de doutorado sobre a escritora.
De volta à cidade após concluir sua tese, publicada em 2013, o quadro havia sido removido. Como Maria Firmina não deixou para trás nenhuma foto ou retrato, no entanto, o engano perdura. Mesmo hoje, algumas das primeiras imagens que aparecem em pesquisas pelo nome da escritora na internet ainda são de Délia.
Em um busto esculpido em sua homenagem, hoje exposto na Praça do Pantheon, no centro de São Luís, pouco transparece da descrição feita por ex-alunos e conhecidos de Maria Firmina: uma mulher de rosto arredondado, cabelo crespo, grisalho, cortado curto e amarrado na altura da nuca, com nariz curto e grosso.
Na estátua “o nariz é afilado, os lábios finos, cabelos lisos, amarrados em coque, em nada se parecendo a uma mulher negra ou mulata”, constata Agostinho.
Para ela, o escultor Flory Gama se preocupou antes em representar a artista como a única mulher, em meio aos bustos de tantos homens maranhenses ilustres, do que como negra. Daí os seios avantajados, ainda mais marcantes em contraste com a magreza das feições da estátua.
As confusões com a imagem de Maria Firmina espelham sua própria obra, que teve boa aceitação da crítica quando publicada, mas acabou caindo no esquecimento após sua morte. Só seria redescoberta em 1962, quando o historiador paraibano Horácio de Almeida (1896-1983) encontrou, em um sebo do Rio de Janeiro, uma edição de Úrsula, único romance da escritora e hoje considerado o primeiro livro brasileiro a se posicionar explicitamente contra a escravidão, antecedendo em mais de dez anos obras como O Navio Negreiro (1870) e A Escrava Isaura (1875).
A biografia que se sabe
Maria Firmina nasceu no dia 11 de março de 1822, na cidade de São Luís do Maranhão, filha de uma escrava alforriada e de um pai negro. Até 2018, acreditava-se que tivesse nascido em 11 de outubro de 1825 — na realidade a data de seu batismo —, de mãe branca com origem portuguesa, segundo a primeira biografia da autora, Maria Firmina – Fragmentos de uma Vida (1975), escrita pelo poeta e jornalista maranhense José Nascimento Morais Filho (1922-2009).
A descoberta da nova data de nascimento foi feita por Dilercy Aragão, professora aposentada da Universidade Federal do Maranhão que hoje ocupa a cadeira de Maria Firmina na Academia Ludovicense de Letras.
O caso é um exemplo do pouco que se conhece sobre a vida da autora. Do nascimento até a publicação de Úrsula, em 1859, há várias lacunas. Sabe-se que ficou órfã e se mudou em 1830 para a casa da tia em Guimarães, onde viveu até o fim da vida. Com a parente, que tinha melhores condições financeiras, teve a oportunidade de estudar, algo raro para mulheres negras no período.
Em 1847, foi aprovada em concurso público para professora de primário, cargo que exerceu até se aposentar em 1881. No momento de receber o título, Maria Firmina se recusou a ser levada em um palanque sobre o ombro de escravos, uma tradição na época. “Negro não é animal para se andar montado nele”, teria dito. Em vez disso, foi a pé.
Durante 50 anos, a escritora colaborou com vários jornais maranhenses, onde publicou poesias, contos e crônicas. Entre eles, os contos Gupeva (1861) e A Escrava (1887), dois de seus textos mais famosos.
Um ano antes de se aposentar, Maria Firmina fundou em Guimarães a primeira escola mista do Maranhão, que recebia gratuitamente meninos e meninas pobres. Morreu em 1917, aos 95 anos de idade, deixando 11 filhos adotivos.
Além da imagem, Aragão lembra que faltam detalhes importantes da biografia da escritora, como os anos de sua juventude, a vida do pai, João Pedro Esteves, e onde ela teria realizado seus estudos.
“Guimarães era uma vila pequena naquela época, então onde ela pode ter estudado? Ainda existe uma longa jornada pela frente, e todas essas dúvidas só nos instigam a buscar mais respostas”, diz a pesquisadora.
O escravo humanizado
Maria Firmina esteve entre os primeiros escritores a de fato dar voz a personagens negros no Brasil, afirma o professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília Danglei de Castro.
“O enfoque dado aos problemas da escravidão, como a situação da criança negra, a perda de identidade dos escravos em seu deslocamento da África para o Brasil e o alcoolismo são formas de representar o lugar dos negros na sociedade brasileira do século 19”, explica.
Para Agostinho, da Universidade Federal do Maranhão, a autora humanizava os personagens cativos, colocando-os em pé de igualdade com os brancos da trama — a Úrsula do título do romance é uma mulher branca.
“Ele escuta a nênia plangente de seu pai, escuta a canção sentida que cai dos lábios de sua mãe, e sente como eles, que é livre; porque a razão lho diz, e a alma o compreende. Oh! A mente! Isso sim ninguém a pode escravizar!” O trecho de Úrsula retrata uma reflexão do escravo Túlio sobre sua condição. Também no livro, a negra Susana descreve as dificuldades do traslado entre África e Brasil anos antes da publicação de O Navio Negreiro, de Castro Alves.
De acordo com a pesquisadora, exemplos como esses mostram que Maria Firmina apresentava personagens escravos “com uma positividade que não foi feita nem depois dela, mesmo por escritores abolicionistas”.
Isso porque livros posteriores, como As Vítimas-Algozes (1869), de Joaquim Manuel de Macedo, e A Escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães, teriam sido escritos para sensibilizar leitores brancos, mostrando como a escravidão poderia ser um problema para eles, mas deixando em segundo plano o sofrimento dos negros.
Décadas mais tarde, com o avanço da causa na sociedade brasileira, a autora chegou a criar em contos como A Escrava personagens negras abertamente abolicionistas.
A questão da mulher
O caso da escritora foi atípico para a sociedade profundamente machista da época. Segundo a professora da Universidade Estadual do Piauí Algemira de Macêdo, ela foi a única mulher com presença tão marcada na imprensa maranhense ao longo de todo o século 19.
Esse descompasso não passava despercebido à própria autora, que, no prólogo de Úrsula, dizia ter consciência de que “pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem”.
Na sua escrita, destaca-se uma pluralidade do retrato das mulheres, com exemplos que vão desde o ideal feminino do período até personagens que desafiam fortemente as convenções.
“No conto A Escrava, encontramos grupos de mulheres que se sujeitam aos ditames dos maridos ou apoiam a escravidão, mas também outras da sociedade burguesa que lutam contra ela”, explica Macêdo.
A pesquisadora também aponta a personagem da negra Susana, de Úrsula, como uma quebra no estereótipo da mulher negra sexualizada, interessada em seduzir, muito presente na literatura do período.
“Ela é descrita como uma mulher não atraente, magra, seca. A autora não se preocupou em incluir esse aspecto que a cultura brasileira costuma dar para mulheres negras.”
Reconstruindo vida e obra
Na cidade de Guimarães, da casa onde Maria Firmina viveu e lecionou a única memória que resta é uma placa com seu nome, sobre a fachada de uma loja de móveis construída no mesmo lugar. Quando visitou o local, em 2012, Agostinho não encontrou nas bibliotecas públicas nenhum exemplar da obra da autora. Nem mesmo seu túmulo estava identificado — na ocasião, a placa tinha sido roubada por vândalos.
Apesar do descaso com a memória física de Maria Firmina, a pesquisadora relatou em sua tese que os moradores conheciam a autora, concluindo que “a memória social de Maria Firmina dos Reis está viva entre os habitantes da cidade de Guimarães”.
Desde então, o reconhecimento da escritora no país se expandiu. Entre os anos de 2017 e 2018, Úrsula ganhou 13 novas edições. Além disso, vários estudos foram dedicados a sua vida e obra e, em 2019, a escritora foi homenageada com um Doodle do Google — em outubro, ainda na data errada de seu nascimento.
Para Danglei de Castro, o lugar da autora em nossa literatura vem sendo progressivamente recuperado. “A obra de Firmina é atual, mesmo distante no tempo histórico. É uma autora de grande força expressiva e, por isso, sua leitura é importante para compreender a complexidade da sociedade brasileira.”
“Algumas pessoas têm publicado trabalhos sobre o livro Úrsula, mas ainda é pouco para a grandiosidade de Maria Firmina, considerando que foi a primeira romancista brasileira”, afirma Dilercy Aragão. “Nós brasileiros não valorizamos a nossa cultura. Por isso, é importante continuar consolidando essa visibilidade.”
No ano de 2017, o estado do Maranhão instituiu o Dia da Mulher Maranhense, que coincide com o aniversário da autora. Em 2018, Maria Firmina foi uma das artistas homenageadas na Flup (Festa Literária das Periferias), no Rio de Janeiro, que organizou um concurso visando recriar o rosto da autora.
“Ainda estamos reconstruindo a história de Maria Firmina”, diz Algemira de Macêdo. “Quando comecei a pesquisar sobre ela, em 2011, me sentia praticamente sozinha. Hoje fico feliz em ver minha voz ecoada.”

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